Lições da Babilônia: Assegure uma renda para o futuro, por Chael Mazza e Elvira Cruvinel

“(…) Seja previdente quanto às necessidades de sua velhice e quanto à proteção de sua família” (CLASON, 1926:53).

Os antigos moradores da Babilônia sabiam da importância de se planejar uma velhice próspera, que pudesse garantir conforto para eles e suas respectivas famílias. Eles sabiam que, em algum momento, não mais poderiam trabalhar – até porque os trabalhos eram, em sua maioria, manuais, exigindo esforço físico. Nesse cenário, garantir o sustento para esse período pós-laboral não era uma opção, mas, uma necessidade.

Mas, será que é tão simples assim planejar o futuro e, assim, assegurar uma renda para se viver bem, que é a sexta lição dos babilônios ?

O objetivo deste artigo é trazer, para o contexto atual, ensinamentos que muito ajudaram os antigos a encontrar os caminhos da riqueza, resgatando as lições apresentadas no livro “O homem mais rico da Babilônia”, escrito por George S. Clason, em 1926. Esse artigo trata da sexta, de sete lições. Para ver os artigos com as lições anteriores, busque-os no Portal do Cooperativismo ou escreva para os autores.

Famigerado longo prazo

O longo prazo não é algo que vem naturalmente para o ser humano. Somos o único animal na Terra capaz de antecipar situações que nunca ocorreram, ao mesmo tempo que temos bastante dificuldade em nos mantermos fiéis a um plano onde os retornos estão ainda muito distantes. Por isso, planejar-se para o futuro, para a maioria das pessoas, é difícil.

Junta-se a isso o fato de que o mundo tem mudado cada vez mais rápido. Mudanças que antes demoravam décadas para acontecer agora acontecem em meses. O mundo está mais acelerado e o cenário de amanhã está cada vez mais imprevisível.

Esses dois fatores, combinados, são a receita para o desastre do ponto de vista do planejamento. Diante disso, perguntamos qual o propósito de se planejar para o futuro se não sabemos como vai ser o dia de amanhã. E a resposta é simples: não sabemos, mas o dia de amanhã muito provavelmente chegará.

A expectativa de vida hoje é bem superior à dos antigos babilônios. Com a revolução na ciência, os seres humanos passaram a viver, em média, muito mais. Para se ter uma ideia, a expectativa de vida no Brasil é de 76 anos. Ou seja, toda aquela coisa de não investir porque não sei se estarei vivo amanhã, cai por terra. É muito provável que você esteja vivo amanhã, daqui a um ano e até daqui a várias décadas. Assim, a pergunta relevante passa a ser: qual o estilo de vida que quero ter no futuro e como me preparar para isso?

Nesse sentido, um conceito que busca dar conta dessa preocupação são as chamadas previdências. A ideia é simples, mas sua aplicação tem se mostrado bastante complexa.

Primeiramente, como já dissemos, longo prazo não é um dos pontos fortes do ser humano. No geral, aquilo que não nos traz retorno imediato não nos interessa, de forma que, separar um dinheiro todo mês, para algo que só poderei aproveitar daqui a muitos anos, não me parece (hoje) uma boa ideia.

Em segundo lugar, há a questão de confiarmos na instituição depositária do nosso dinheiro. Ou seja, precisamos confiar que aqueles que ficarão de posse de nossas ricas moedas todo esse tempo irão zelar adequadamente e nos dar o retorno prometido.

Em terceiro lugar, não sabemos nem o dia de amanhã, então, quem dirá, daqui a um longo período. Nosso futuro depende de tomarmos as decisões certas hoje, em um cenário de constante mudança e imprevisibilidade. Nesse contexto como fazer a melhor escolha, hoje?

Vamos, então, endereçar cada um desses pontos, mostrando não apenas a importância de se planejar para o futuro, mas também as melhores alternativas para tal.

Previdência: inimiga ou aliada?

Previdência significa nada mais do que uma reserva financeira que se faz hoje, para o futuro. Ou seja, ela representa você separar uma parte do que você ganha todo mês, de forma que possa ir juntando aquilo para usar no seu futuro – normalmente, depois que se aposentar. A previdência pode tanto ser pública – gerida pelo governo – ou privada – gerida por empresas privadas. Destaque-se que, possuir um tipo, não elimina a possibilidade de se investir no outro.

A principal vantagem de se aderir a um plano de previdência é que o dinheiro sai de forma automática da sua conta para a sua previdência, de forma que não corre o risco de você gastar sem perceber. Por outro lado, a principal desvantagem é que você apenas tem acesso a esse dinheiro depois que se aposentar, ou seja, precisa esperar esse tempo para poder usufruir.

Então, se você é aquele tipo de pessoa que não quer dor de cabeça com investimentos para seu futuro, escolher um bom plano de previdência é uma excelente opção. Busque aqueles oferecidos por instituições que você confia e que garantam a você uma renda futura adequada às necessidades suas e de sua família.

Gaste um tempo escolhendo o melhor plano para você. Não tome uma decisão em cinco minutos de algo que vai impactar sua vida nas próximas cinco décadas. Estude. Procure entender os detalhes e as taxas. Depois de garantir que tomou a melhor decisão possível, esqueça isso e deixe o tempo agir a seu favor, revisando de tempos em tempos se o seu dinheiro está seguindo o caminho planejado.

Agora, se você possui alto interesse em finanças e investimentos, há a possibilidade de você construir sua própria reserva para a aposentadoria, “investindo por fora” dos planos de previdência. A vantagem dessa segunda linha é a do dinheiro estar sempre à sua disposição, de forma que você pode usufruir dos benefícios a qualquer momento. Mas, para tanto, é necessário muito estudo e disciplina, de forma a garantir que a gestão que você fará do dinheiro será melhor do que aquela realizada por instituições especializadas.

É claro que uma não elimina a outra. Você pode aderir a um plano de previdência para garantir uma renda futura mínima e buscar formas complementares de renda, seja aderindo a planos de previdência complementares ou investindo por conta própria. O importante é dedicar um tempo para decidir o quanto você quer ter de renda mensal no futuro, o quanto quer reservar do seu dinheiro hoje e quais os planos possíveis para se alcançar isso.

Questão da Confiança

Um ponto importante na preparação para o futuro é a questão da confiança. Se vou guardar todo mês uma parte do que eu ganho em algum lugar, esse deve ser um lugar seguro. E aqui não falo confiar apenas no sentido de o dinheiro estar seguro, mas principalmente se as pessoas que irão gerir meu dinheiro possuem as melhores intenções e preparo para tal.

Um plano de previdência é algo para o longo prazo. Em outras palavras, você vai ficar muito tempo “preso” naquele investimento, mensalmente depositando valores de seu salário. Para isso, é extremamente importante que você confie nos gestores do seu dinheiro.

Procure saber quem são essas pessoas que cuidarão do seu dinheiro. Como elas irão investir seu dinheiro para você? O que vão fazer se tudo der errado? Existe a possibilidade de eu trocar de plano ou gestora no futuro? Quais são as taxas se eu precisar do dinheiro antes? Quais outros benefícios terei com esse plano de previdência, além da renda futura? Se o cenário mudar muito, como fica minha renda? Essas são perguntas-chave para você ter na ponta da língua na hora de fechar seu plano de previdência.

Agora, se optar por investir por fora, a questão da confiança cai sobre você. Terei disciplina para separar aquele valor todo mês, independente do que acontecer? Onde vou investir esse dinheiro? O que vou fazer se o cenário mudar? O que vou fazer se os investimentos derem errado? Ter isso antecipado é o que fará toda a diferença na hora de investir na sua aposentadoria.

Ciclo de Vida Financeira

Todo ser vivo segue uma lógica determinada. Nascer, crescer, reproduzir e morrer é mais ou menos um mantra na biologia, mesmo que alguns indivíduos não passem por todas as etapas.

Da mesma forma, nossa vida financeira segue um ciclo, resumido nas seguintes fases: 1) acumulação; 2) manutenção; e 3) usufruto.

Na fase de acumulação, que no geral vai da juventude ao final da meia-idade, o objetivo é justamente o de se acumular patrimônio. Devemos aproveitar justamente a energia da juventude para juntar mais riquezas para o nosso futuro. Aqui onde podemos errar, por estar no início, e por isso podemos nos arriscar mais. Claro que é também nessa fase onde buscamos construir família e adquirir um lar, mas isso não nos impede de continuar acumulando dinheiro para o longo prazo. Aprender finanças e investimentos logo no início é algo que fará toda a diferença.

Na fase de manutenção, que vai da meia-idade até a aposentadoria, o objetivo é mantermos aquilo que construímos em termos de patrimônio e riqueza. É onde migramos cada vez mais para investimentos mais conservadores e buscamos formas de manter o capital frente aos diferentes riscos e cenários. Continuamos acumulando, mas em um ritmo mais tranquilo.

Por fim, na fase de usufruto, passamos a nos beneficiar da renda de tudo aquilo que acumulamos, nos garantindo tranquilidade depois que paramos de trabalhar, se pararmos. Aqui buscamos gastar apenas os juros que nossos investimentos estão rendendo, ou sacamos um valor que não faça tanta diferença no montante total.

Lembrando que as fases não estão relacionadas diretamente com a idade. Dependendo do seu estilo de vida e os seus objetivos, é possível pensar em aposentadorias antecipadas.

Então, no final das contas, mesmo diante de todas as questões de se investir para o longo prazo, não faz sentido nos perguntarmos se devemos nos preocupar com o futuro, mas sim como podemos melhor planejar nosso futuro diante do cenário que se mostra à nossa frente.

Para mais dicas sobre finanças, siga a página @curtafinancas, no Instagram!

Referência
CLASON, George Samuel. O homem mais rico da Babilônia. 1ª edição. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017. Escrito em 1926.

Chael é doutor em Administração pela UNB e criador do @curtafinancas no Instagram. Elvira é doutora em Administração pela FGV e possui ampla experiência com educação financeira. O conteúdo do artigo é de inteira responsabilidade dos autores, não representando posicionamento da instituição em que trabalham.

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