E a essência da agenda global do cooperativismo financeiro se mantém!, por Ênio Meinen

“A idade da pedra não acabou por falta de pedra.”
(Xeique Ahmed Zaki Yamani – ex-ministro da OPEP)

Woccu 2016Reunidas há pouco em Belfast, capital da Irlanda do Norte, no fórum anual do Conselho Mundial de Cooperativas de Crédito – Woccu, as lideranças do segmento reafirmaram os principais pontos da agenda do movimento ao redor do Globo.

Entre os desafios da ordem do dia, repetem-se:

  1. a questão regulamentar: há incursões concretas de retrocesso ou desapoio ao setor cooperativo – casos, por exemplo, da Itália e da Áustria -, além da intensificação das regras sobre capital e controle, que impõem elevado custo de observância. Nos EUA, a título de destaque, estima-se impacto da ordem de US$ 6,6 bilhões de dólares/ano para o cumprimento da carga regulatória pelas credit unions. Esses aspectos, contudo, não se reproduzem no âmbito brasileiro;
  2. as inovações tecnológicas/digitais: aqui a preocupação, de um lado, é com os altos investimentos para suportar a evolução do parque tecnológico convencional, e, de outro, com a presença cada vez mais acentuada das fintechs startups voltadas para a prestação de serviços de natureza bancária fora do ambiente operacional tradicional – e de outras soluções que conduzem à desintermediação financeira (movimentos concorrenciais);
  3. o crescimento da base de cooperados: em razão da já elevada média de idade do quadro social, o alvo são os jovens, cada vez mais distantes do sistema financeiro tradicional e das próprias cooperativas. As mulheres também passam a ser uma meta, visto que os homens são ainda a maioria dos sócios, especialmente no Brasil;
  4. os juros baixos e a falta de escala: na grande maioria das economias ditas desenvolvidas – estima-se que cerca de 18% do PIB é representado por nações cujas taxas de juros são iguais ou menores que zero -, as cooperativas sofrem com a combinação de juros baixíssimos (ou negativos) e escala reduzida. No Brasil, por ora, apenas a baixa escala é objeto de atenção, o que tem levado a um aumento dos processos de incorporação;
  5. a (in)fidelidade operacional: embora o portfólio comercial das cooperativas esteja praticamente no mesmo plano do conjunto de produtos e serviços das grandes redes bancárias, o paralelismo do relacionamento bancário por parte de cooperados ainda é muito expressivo, particularmente em países como o Brasil;
  6. a governança: a atenção neste particular volta-se, sobretudo, à formação deficiente do quadro de dirigentes e a total ausência de processos sucessórios nas cooperativas;
  7. a preservação da identidade cooperativa: a falta de clareza, em particular com relação ao papel do cooperativismo financeiro, o descompromisso com os seus direcionadores estratégicos (visão, missão e valores) a baixa dominância de seus diferenciais doutrinários e o deslumbramento com o mercado são apontados como grandes ofensores à preservação da identidade cooperativa, gerando sérios riscos à desmutualização;
  8. a difusão do cooperativismo e de seus diferenciais: é inegável o desconhecimento por parte de lideranças, colaboradores, associados, do poder público e da sociedade em geral sobre os apelos doutrinários, as particularidades societárias e as vantagens econômico-financeiras do cooperativismo.

Ainda que haja outros itens que requeiram a atenção das instituições financeiras cooperativas pelo mundo, esses temas, sem dúvida, haverão de compor os planos de ação do setor pelos próximos anos.

Dada sua relevância para a sustentabilidade do cooperativismo financeiro, dedicamos à matéria um capítulo específico no livro “Cooperativismo financeiro: virtudes e oportunidades – ensaios sobre a perenidade do empreendimento cooperativo”, que será lançado em setembro do corrente ano, durante a realização do Concred, no Rio de Janeiro.

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Ênio Meinen, advogado, pós-graduado em direito (FGV/RJ) e em gestão estratégica de pessoas (UFRGS), e autor/coautor de vários artigos e livros sobre cooperativismo financeiro – área na qual atua há 32 anos -, entre eles “Cooperativismo financeiro: percurso histórico, perspectivas e desafios”. Atualmente, é diretor de operações do Banco Cooperativo do Brasil (Bancoob).

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