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Cooperativas de crédito buscam espaço mundial, entrevista com Brian Branch

CEO do Conselho Mundial do setor (Woccu), Brian Branch percebe no Brasil um exemplo a ser seguido

Considerado o Ano Internacional do Cooperativismo pela ONU, 2013 também garantiu destaque entre as principais conquistas para os sistemas de crédito. No último exercício, o segmento obteve expansão de 20% em participação de mercado e deu mais uma passo para o funcionamento efetivo do Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop). A instituição nasce com o objetivo de garantir os depósitos do quadro social em casos de falência dos sistemas, de maneira similar à atuação do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), junto aos bancos de varejo tradicionais.

O aspecto que ainda trava o funcionamento do FGCoop, no entanto, diz respeito às disposições de recolhimento das instituições. Apesar de ser considerado um importante instrumento de segurança para as 1.150 mil cooperativas de crédito e os mais de 6,5 milhões de associados, a oneração das contas e dos serviços financeiros oferecidos pode se tornar um fator de redução de atratividade para o público alvo do setor. O alerta foi feito pelo CEO do Conselho Mundial de Cooperativas de Crédito (Woccu, na sigla em inglês), Brian Branch. O órgão representa 56 mil cooperativas que juntas reúnem mais de 200 milhões de associados em 101 países.

Segundo o executivo, que esteve em Porto Alegre na semana passada, participando do Fórum de Presidentes e Executivos do Sicredi, o apoio à criação de marcos regulatórios ao redor do mundo é uma das batalhas da instituição, mas a ressalva sobre os custos é outra bandeira a ser erguida.

Nesta entrevista, o CEO do Woccu afirma que a crise do subprime e a recessão na Europa inauguraram uma nova era no sistema financeiro internacional. A inserção neste novo cenário é o principal desafio, mas também o grande responsável pela sobrevivência das cooperativas de crédito. Branch, que atua há mais de 30 anos no desenvolvimento e implementação de pesquisas para o setor, e já ocupou o cargo de administrador regional para a América Latina do Woccu, percebe no modelo brasileiro um exemplo a ser seguido. Entre os pontos em destaque, o economista chama a atenção para iniciativas voltadas à criação de plataformas virtuais para serviços financeiros e o rápido crescimento da base de clientes.

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Jornal do Comércio — O panorama internacional no pós-crise determina avanços ou retrocessos para as cooperativas de crédito?

Brian Branch – Após a recessão internacional, há uma perspectiva de crescimento para as carteiras de clientes e um novo campo aberto para as cooperativas de crédito se fortalecerem. A natureza dos serviços financeiros está em pleno processo de mudança e evolução. O nicho ocupado pelas cooperativas de crédito deve ser ampliado, mas para isso é preciso estar atento e preparado para atender aos desejos dos clientes. E o que os clientes querem é acesso livre, quando quiserem e onde estiverem, aos serviços de crédito e pagamentos. Então, percebemos esse como um momento desafiador, mas também como uma alternativa de reinvenção para as cooperativas de crédito em todo o planeta.

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JC – E quais são os desafios para ampliar essa participação?

Branch – Neste momento, existem três desafios comuns a todas as cooperativas do planeta. O custo dos marcos regulatórios, as estratégias de elaboração de produtos financeiros e a atração de novos associados junto ao público jovem. Neste aspecto, quando avaliamos o sistema Sicredi, por exemplo, percebemos que aqui reside uma das melhores práticas. Utilizamos esse exemplo em outros países. Temos um contingente de pessoas do Canadá, dos Estados Unidos e da Polônia, entre outros países, que buscam o Brasil para apreender com as experiências daqui. Dentro do Woccu, organizamos grupos de estudo para avaliar o caso de sucesso do Sicredi. Um dos pontos que chama a atenção é, justamente, o rápido aumento dos índices de crescimento. Enquanto a atração de novos associados engatinha em outros países e se mantêm na faixa etária de 45 anos, o Sicredi tem conseguido penetrar em um público mais jovem. Isso se justifica pela oferta de ferramentas que procuramos repetir e desenvolver em outros países. O uso de plataformas virtuais para telefones celulares é um dos exemplos disso. Nos Estados Unidos, uma em cada três pessoas busca esse tipo de acesso em suas instituições financeiras. Então, isso demonstra o acerto na estratégia do Sicredi em investir na construção de plataformas que desenvolvam produtos voltados a esse perfil de acesso. Reino Unido e na Polônia, inspirados pelo Sicredi, também desenvolveram modelos similares.

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JC – O sr. acredita que os marcos regulatórios nacionais, como o FGCoop — voltado à segurança financeira de maneira semelhante ao fundo de proteção aos bancos de varejo tradicionais — também colabora com o ritmo de expansão das cooperativas de crédito no Brasil em outros nichos de mercado, e não apenas no agronegócio?

Branch – São três questões distintas. O Sicredi, por exemplo, consegue índices satisfatórios de penetração em novos mercados, e não apenas entre os produtores rurais. Isso denota novos desafios operacionais e gera pressões por respostas rápidas no que se refere à criação de novos produtos financeiros. O aumento da regulação não é uma exclusividade do Brasil. Em outras partes do um mundo, há uma tendência de ampliação das ferramentas de controle e regulação sobre as cooperativas de crédito no sentido de que todos se sintam mais seguros, independente de serem bancos, associados, agentes financeiros ou cooperativas de crédito. Apoiamos esse tipo de regulação, mas temos de ter cuidado no sentido de não permitir um aumento expressivo nos custos operacionais que trariam reflexos para as pessoas que possuem menores contas. O custo incidente sobre as operações, principalmente, nas menores movimentações financeiras, torna a manutenção da conta junto à cooperativa menos interessante. É importante ter a regulamentação institucional e financeira, mas também é preciso considerar os custos operacionais destes órgãos regulatórios.

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JC – Isso tornaria as cooperativas menos competitivas na comparação com os bancos tradicionais?

Branch – A concorrência é um desafio em qualquer lugar. Vemos bancos crescendo neste mercado. Não há tanta dificuldade na competição entre cooperativas e bancos, mas sim com a ampliação do número de outros tipos de agentes de varejo que começam a oferecer serviços financeiros. Vemos novos agentes de crédito que oferecem serviços de pagamentos, microcrédito e atuam diretamente com o público das cooperativas. Este aspecto traz maior preocupação de competitividade do que os bancos tradicionais.

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JC – No Brasil, as cooperativas já representam 16% das agências bancárias, mas administram menos de 3% dos ativos e representam menos de 10% do PIB. Esses dados são coerentes com os encontrados em países onde o cooperativismo é considerado mais desenvolvido?

Branch – Nos Estados Unidos e no Canadá encontramos um percentual de 7% dos depósitos e temos algo em torno de 15% dos mercados. Isso não em razão de regulações, mas por se tratarem de contas individuais (pessoas físicas). Essas contas são muito menores que as contas dos bancos comerciais. Então é como comparar laranjas e maçãs. Aumentar a penetração entre empreendedores, pequenos e médios negócios é um desafio e uma meta a ser seguida pelas cooperativas de crédito. No Canadá, as pequenas empresas já representam cerca de 25% da base da carteira. Esse é um bom portfólio. Em muitos países da América Latina esse é uma parcela importante do portfólio com algo entorno de 15%.

Fonte: Jornal do Comércio – POA

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