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O Caminho Selic no Cooperativismo de Crédito, por Ricardo Coelho

Sem métricas e padrões não podemos avaliar se algo está correto ou se desenvolve a contento. E, para tanto, inventamos medições para quase tudo que nos cerca como: distância, pesos, glóbulos brancos, índice de desenvolvimento humano (IDH) e assim por diante.

Entre todas estas métricas, a que atualmente mais me fascina é a que determina a distância, peso e tempo, já que no final de abril, acompanhado da esposa e de uma mochila de 10 kg, farei a caminhada de 30 dias pelos 800 km do Caminho de Santiago de Compostela, cruzando a Espanha. Investimos horas na avaliação e harmonização de temas coadjuvantes que podem minar ou favorecer nosso projeto, mesmo que seja aparentemente insignificante como a escolha da marca e formato do “band-aid” que levaremos. Estamos fisicamente e mentalmente preparados para o início do “Caminho”, tendo muita afinidade com os novos parceiros: mochila, botas, bolhas, colchonetes, trajes, alimentação, chuva, frio, piso… . Será um bom “Caminho”.   

Mas o que este projeto particular tem a ver com a gestão do Cooperativismo de Crédito? Ocorre que vemos muitas Singulares levando em suas mochilas de gestão, pesadas e desconhecidas pedras de gelo, sem saber qual a sua real utilidade e desatentas ao seu descongelar em grandes pingos por um deserto inóspito. Uma destas grandes pedras de gelo é a Selic. Vamos a ela.

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Selic: A grande e pesada pedra de gelo em nossa mochila de gestão. 

Muitas Singulares carregam esta grande pedra de gelo sem analisar detalhadamente os benefícios e malefícios em sua instituição. E para agravar, tendem a dar-lhe atenção unicamente nas 8 vezes ao ano, quando a cada 45 dias há reuniões do COPOM – Comitê de Política Monetária. E com esta visão superficial, traçam ponderações descompromissadas sobre o real impacto da Selic.

Se a distância, peso e tempo são relevantes como métricas para o projeto do Caminho de Santiago, a Selic deveria ser uma das mais importantes métricas a ser gerida com sapiência pelos gestores do Cooperativismo de Crédito. É sabido que sua manutenção ou oscilação seguem vieses econômicos e políticos, já que esta “torneira” permite que rapidamente o governo controle o consumo ou o investimento, e consequentemente o apetite da inflação, além de balizar o custo da sua dívida.

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Uma inferência pretensiosa à CDI a 8% a.a. como métrica de competitividade:

Pelos cenários macros internacionais e nacionais há uma forte sinalização que a gestão da Selic pelo COPOM para o ano será de manutenção em patamares próximo a 9% a.a, chegando eventualmente ao “número mágico” de 8,75% a.a.. Sim, pois esta é a trava mental para a Selic no Brasil. Basta observarmos que na série histórica saudável da Selic nestes últimos 15 anos, iniciada  em 1.997 quando o Plano Real amadureceu, não tivemos índices menores que 8,75% a.a.. Além de que, nos recentes governos de “esquerda moderada” (Lula e Dilma), 8,75% a.a. é o patamar de mais longa sequência de toda a série histórica, sendo 6 reuniões do COPOM em 9 meses corridos.

Este cenário pode ser melhor compreendido se revermos as ponderações do nosso artigo postado no site: CDI – Amor platônico do martelo por um prego, no qual propomos entre outras reflexões, a que baliza o ganho mínimo de 4% a.a. aceito pelo investidor, já descontado a inflação que oscila em 4% a.a.. Ou seja, uma Selic nunca menor que 8% a.a.. Menos que isto o governo terá sérias dificuldades em dar atratividade para que os investidores comprem seus papéis visando a rolar sua dívida pública. Nesse artigo, ainda orientávamos a usar uma Selic conservadora de 8% a.a. para todos os cenários do Planejamento Estratégico e dos Planos de Ação Comercial. Se uma Singular for eficaz ao patamar de uma Selic de 8% a.a., há grandes possibilidades de vir a ser um sucesso.

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Onde a Selic pode impactar o Caminho das Singulares – visão macro:

a)      Muitas Singulares coerentemente já pagam Selic cheia pelo Capital Social aplicado pelos seus “sócios”, outras o fazem parcialmente. Assim, com a redução e manutenção deste indexador, a remuneração custará menos ao ano, favorecendo a elevação das Sobras.

  • § Vemos muitas das Singulares remunerando o Capital Social em apenas um percentual da Selic. Assim, buscam no índice de poupança uma alternativa para declarar ao sócio que seu investimento foi minimamente corrigido, contudo omitem que ele ainda pagará 15% de IR.

b)      Com a Poupança mais atrativa, as Singulares passam a captar menos em Depósito a Prazo, podendo isso ser um sério problema para manter a rentabilidade da Singular ou até mesmo manter a carteira de crédito enquadrada nos índices oficiais.

  • § Devemos ficar atentos, pois a solução Poupança vem recebendo intensos estudos do governo para mudar a regra de ganhos para novas contas e aportes, visando a acabar com o tradicional ganho fixo de 6% a.a.. Sim, pois em época de Selic baixa, a Poupança se torna muito competitiva, em especial por não incidir IR, atraindo indevidamente investidores especulativos e não apenas os pequenos poupadores, que é o objetivo maior deste produto.

c)      Como medida prudencial muitas Singulares aplicam na centralizadora parte de seus passivos e/ou seus excedentes de caixa, ou seja, quanto mais tiverem recursos na centralizadora e mais a Selic baixar, menos “receita” será somada às Sobras. E para muitas Singulares hiper aplicadas esta variação negativa da Selic poderá determinar perda já neste exercício ou um enorme impacto nas Sobras. Sim, pois com este enorme saldo “parado” na centralizadora, irão abrir mão de uma receita cativa anual de 2,5% a.a. (Selic de 12/2011 a 11,50% a.a. contra 9% a.a. provável em 12/2012). E como usualmente as Singulares hiper aplicadas não sabem dar crédito de varejo, podem estar diante de um impasse existencial e de um cenário de risco.

d)      Algumas Singulares são desatentas à definição de suas taxas de captação em Depósito a Prazo, pagando sempre alto, inclusive para aplicações de curto prazo, mesmo que não tenham demanda por este recurso. Assim, a médio prazo, haverá sérios impactos na engenharia das Sobras, e em muitos casos, podem nem identificar a tempo a causa. Sim, pois é fácil incrementar ou estancar a carteira de empréstimos, mas a lógica por detrás da captação é muito mais sutil e astuta. Este tema é um dos inúmeros orientados em nossas consultorias e que muitas vezes precisam de melhorias pontuais e novas estratégicas na gestão de recursos.

e)      Muitas Singulares indexam a grande maioria de seus créditos parcelados ao CDI, o qual segue muito de perto a variação da Selic. Portanto, com a queda do CDI, as receitas futuras destes créditos irão cair substancialmente, impactando as Sobras. Contudo, beneficiando agora estes clientes, pois poderão vir a ter sua taxa de juros real menor que o custo do dinheiro da Singular.

  • § Além de ficar descasado o prazo entre captação e alocação do recurso, sem que haja garantia de que a aplicação será mantida pelo prazo médio dos longos créditos concedidos. Pois, uma baixa remuneração, faz com que boa parte dos investidores procurem novas opções ao tradicional depósito a prazo e fiquem inquietos quanto a baixa remuneração do Capital social.

f)       Confrontando a lógica mercadológica, algumas Singulares reduzem ou sobem suas taxas de juros de varejo, unicamente porque a Selic (CDI) oscilou. Ora! O custo do dinheiro a emprestar é composto por uma gama de complexas variáveis, e não unicamente pelo custo financeiro da captação. Portanto não pode sozinho deflagrar a delicada ação de alterar os juros.

g)      Outras reflexões poderiam estar aqui explicitadas, mas deixemos que vocês as construam.

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Reflexão Final:

Percebemos que nestes quase 20 anos a Selic, e o seu fiel escudeiro –  CDI influenciaram uma gama de aspectos da gestão do Cooperativismo de Crédito. Contudo, não é usual vermos muita disposição em observar e entender os sinais de advertência e de oportunidades atreladas a variações da Selic. Reconhecemos que é complexa a análise dos impactos da Selic no Cooperativismo de Crédito, mas cabe aos executivos, em especial aqueles do Conselho de Administração em Singulares com Governança, estudar e entender profundamente a Selic, como também os demais temas macros de gestão da sua Instituição.

Importantíssimo: Com  a manutenção da Selic em baixa, é urgente que oxigenemos nossas fontes de receitas, através da venda de todas as nossas soluções, e não somente das aplicações e créditos. De imediato, devemos viabilizar: tarifas avulsas e pacotes de serviços bem precificados; cobrança de títulos em valores coerentes; repasse rentáveis de seguros, consórcios, cartão de crédito etc; uso da conta corrente e dos débitos automáticos … . O mercado já pune fortemente as Singulares que não agregam a sua base todos os serviços do varejo financeiro massificado. Por mais ágil e “fácil” que possa parecer, é arriscado o “Caminho” focado em captação e crédito. A sobrevivência do Cooperativismo de Crédito passa pela entrega de nossos serviços agregados, na medida exata do que “couber” em cada um de nossos sócios. “Fidelização é a satisfação pela concentração.  

Portanto, o Governo é quem criou a Selic e, gostemos ou não, ele a conduz sem qualquer ponderação quanto a sua relevância ou impactos ao Cooperativismo de Crédito. Então temos aqui mais uma métrica para nos guiar e saibamos usá-la a nosso favor. Bom “Caminho” à nós.

Ricardo Coelho   Consultoria e Treinamento Comercial para Instituições Financeiras – www.ricardocoelhoconsult.com.br  

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